
Palestra · Workshop Internacional Geo Soluções · São Paulo
Coordenador técnico da Geo Soluções, Paulo Rocha encerra o workshop comparando geossintéticos a soluções tradicionais em três eixos — economia, velocidade executiva e pegada de carbono — em obras viárias, aterros sobre solo mole, pavimentos e contenções. A linha que costura todos os cases é a mesma: usar o solo local, reduzir transporte e fazer mais com menos. No fim, ele introduz o vídeo de David Ash, idealizador do Lock+Load, fechando o dia.
Sobre o palestrante
Paulo Rocha é engenheiro civil e coordenador técnico da Geo Soluções. Trabalha com geossintéticos há 19 anos — já especificou, projetou e acompanhou obras em todas as frentes da empresa. Foi professor de mecânica dos solos em algumas disciplinas e fechou recentemente seu mestrado, ainda em fase final de entrega da dissertação. Encerrou o Workshop Internacional Geo Soluções com a palestra técnica mais densa do dia, logo antes da apresentação por vídeo de David Ash.
Paulo abriu definindo a categoria: um grupo de produtos predominantemente poliméricos — com algumas exceções em materiais naturais, como juta e palha de coco — aplicados em engenharia geotécnica, hidráulica e de proteção ambiental. Geotêxteis tecidos e não tecidos, geogrelhas, geocélulas, geomembranas e geomantas. A função muda — reforçar, drenar, filtrar, separar, conter — mas a lógica é a mesma: substituir solução convencional por algo mais leve, mais rápido e mais barato no ciclo total.
GeogrelhaGeocélulaGeotêxtilGeomembranaA vantagem principal de aplicar geossintéticos, segundo Paulo, vem em três eixos simultâneos: economia de tempo, economia de dinheiro e redução de impacto ambiental. Tempo e dinheiro são tópicos antigos do setor. A pegada de carbono é mais recente — e foi o ângulo que ele puxou para o centro de cada case desta palestra, mostrando que, em vários comparativos, o mesmo gesto reduz CAPEX, prazo e CO2 ao mesmo tempo.
CAPEXPrazoCO2“A principal preocupação ao aplicar geossintéticos é trazer economia: economia de tempo, economia de dinheiro e reduzir os impactos ambientais.”
Tese central
A tese que organiza a fala de Paulo é simples e tem o peso de quem já bateu de frente com ela em muita obra: comparar geossintético com solução tradicional só pelo m² de material entrega o resultado errado. O comparativo justo soma execução, transporte, jazida, prazo, mão de obra, equipamentos — e, cada vez mais, pegada de carbono. Quando essa conta é feita inteira, soluções que pareciam caras viram baratas; soluções que pareciam rápidas viram lentas; e o solo local volta a ser protagonista.
O custo da obra não é o m² do material — é material + execução + transporte + locação de equipamento + mão de obra + tempo parado da operação que está esperando o muro ficar pronto. É essa soma que precisa ser levada para o cliente, com clareza.
CAPEX totalGeocélula contra concreto armado, placa modular contra rachão, Lock+Load contra muro de escamas. Em quase todos os casos, o geossintético reduz prazo de obra em semanas ou meses — e libera a operação para gerar receita antes.
PrazoA IA já calcula CO2 equivalente direto na planilha. E o número aparece de onde a maioria não olha: viagens de caminhão. Trazer rachão de 40 km de distância pesa toneladas. Usar solo local pesa quase zero. É aí que mora a diferença ambiental.
CO2“Quando vocês chegam falando que o muro está mais caro, vamos pegar tudo. Material, transporte, execução, locação de forma, aço, jazida. Aí a gente conversa.”
Comparativos por solução
Paulo percorreu quatro tipos de obra. Em cada uma, levou os dados de entrada para ferramentas de IA — incluindo o ChatGPT — e pediu a comparação entre solução tradicional e solução com geossintético. Os números aparecem aqui na forma que foram apresentados em sala. São estimativas com base em casos reais, e Paulo é explícito: cada obra tem sua particularidade — a Geo Soluções faz a análise caso a caso.
Cenário sudeste, obra pesada, 1.000 m² de canal. Comparativo entre concreto armado, gabião colchão e geocélula preenchida com concreto. A geocélula combina o acabamento de concreto com o tempo curto de execução e a capacidade de absorver recalques diferenciados sem precisar de junta de dilatação.
Acesso a área de solo mole no entorno da Grande São Paulo para execução de fundação profunda. Jazida de rachão a 40 km de distância. A solução tradicional exige lançar rachão, geotêxtil e geogrelha, fazer a obra e depois retirar tudo, com custos de tempo e logística para os dois movimentos.
Cliente identificou solo mole. Geo Soluções rodou análise de estabilidade e otimizou o uso de geogrelhas — encurtando panos para reduzir desperdício. A perda estimada caiu de 25% para 5%. O custo final foi de R$ 730 mil para R$ 630 mil, em uma obra na faixa de R$ 600 mil. Esse R$ 100 mil de economia foi o que viabilizou o negócio para o cliente.
Pista de 16,5 m de largura, duas faixas por sentido. Projeto original com 40 cm de macadame na sub-base. A Geo Soluções rodou pelo método AASHTO (já que o método Medina ainda está em incorporação para geossintéticos) e mostrou que, colocando um geotêxtil tecido entre subleito e sub-base e uma geogrelha entre sub-base e base, era possível cortar 20 cm de macadame mantendo o mesmo número de passadas do eixo padrão — ou seja, a mesma vida útil do pavimento. O resultado, com macadame a R$ 250/m³, levou a uma diferença de R$ 18 milhões em material e R$ 8 milhões em execução, em 50 km de rodovia.
“Por que eu nunca vejo isso aplicado no Brasil? Porque, há alguns anos, brita estava R$ 75 o m³ e a geogrelha não era atrativa. Hoje brita ficou cara — a geogrelha passou a valer a pena.”
Pegada de carbono
Paulo fez questão de mostrar que o ganho ambiental dos geossintéticos não está num catálogo — está na logística da obra. Toda vez que uma solução evita trazer rachão, brita ou areia de jazidas distantes, evita também as viagens de caminhão associadas. Esse delta de transporte é o que mais pesa na conta de CO2 equivalente das alternativas comparadas.
“Mostrei pro meu filho de sete anos e expliquei: nessa obra, a solução que o pai trabalha ajudou a evitar o corte de cinco mil árvores e sete campos de futebol. Ele falou: ‘Não, beleza pai, entendi’.”
Casos de obra
Paulo costurou a apresentação com casos reais, no Brasil e fora dele. Cada um deles ilustra uma das soluções da Geo Soluções aplicadas em campo, com escala, contexto e desafios diferentes — de uma estrada de ferro no Maranhão à aproximação de viaduto em São Paulo, passando por planta industrial no Peru e fundação próxima a aeroporto.
A maior obra Lock+Load em execução pela Geo Soluções. Em torno de 21 mil m² de muro com fábrica itinerante de placas levada para a região — reduzindo frete, transporte e custos tributários atrelados a material acabado. É o caso onde a engenheira Aileen, com apoio da ferramenta GeoQore, registrou o recorde atual de execução do sistema.
Lock+Load21 mil m²GeoQoreRecuperação de talude próximo a Açailândia, no Maranhão, com geocélula aplicada sobre solo orgânico e vegetação restabelecida. Caso usado por Paulo para ilustrar não a aplicação em si — relativamente conhecida — mas o tipo de acompanhamento integral que a equipe técnica da Geo Soluções faz em campo, junto à instaladora.
GeocélulaTaludeObra ambiental com sistema Strata Slope — solução de muro mecanizado com tela metálica — em execução no Peru. A equipe da Geo Soluções planeja uma visita técnica ao local, e Paulo abriu o convite no auditório para quem quisesse acompanhar a delegação.
Strata SlopePeruObra em solo mole resolvida com colunas de brita coroadas por geogrelha — para distribuir a tensão na cabeça das colunas — seguida de pequeno aterro de regularização. Exemplo clássico do uso de geogrelha em camada de transferência de carga sobre tratamento profundo de solo.
Solo moleColuna de britaTrecho de rodovia entre Natal (RN) e Recife passa por região de solo mole. Foi resolvido com aterro de sobrecarga associado a geodrenos verticais — acelerando a saída da água do maciço e fazendo os recalques acontecerem em meses, e não em anos.
Aterro de sobrecargaGeodrenoObra de fundação em terreno saturado, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Placas modulares Extreme Mats foram usadas para garantir estabilidade do equipamento pesado durante a execução — uma das obras em que Paulo comprovou ganho em velocidade de instalação e em segurança operacional.
Extreme MatsPlataforma de trabalhoDesde 2021, a Geo Soluções vem entregando Lock+Load em aproximações de pontes e viadutos em todo o país: obra próxima a aeroporto (anel rodoviário de Viracopos), aproximações do Shopping Dom Pedro em Campinas (SP), Rumo em Rondonópolis (MT), Conchal (SP) na Rota das Bandeiras, novo viaduto do Papa Francisco, obras da MRS e da Eco Vias. À parte do Lock+Load, Itatibá (SP), em 2017, foi uma das primeiras aplicações importantes de geocélula em recuperação de talude — caso clássico citado por Paulo no bloco de proteção contra erosão.
Aproximações de ponteRota das BandeirasViracoposItatibá (geocélula)Contenções em solo reforçado
Paulo dedicou o bloco final à contenção em solo reforçado — o tema que mais cresce na carteira da Geo Soluções desde a publicação da norma ABNT de solos reforçados em 2021. A norma destravou a entrada da tecnologia em órgãos públicos e em obras rodoviárias e ferroviárias. A empresa hoje opera dois sistemas: o Lock+Load (anexo E da norma), com módulos de placas de concreto, e o Strata Slope (anexo F), com tela metálica.
Um sistema modular de placas pré-fabricadas atreladas a contraforte, com geogrelha em quase todas as linhas horizontais. Paulo destacou a vantagem operacional: como toda a execução acontece de dentro do aterro, a frente do muro fica livre — a ferrovia continua operando, o viaduto continua sendo executado, a rodovia ao lado segue trabalhando. Não há paralisação. A inclinação de 10% na face é um detalhe que precisa ser considerado já na concepção.
Anexo E ABNTSem paralisar a operaçãoSistema com tela metálica, conhecido como gabião mecanizado. Tem como vantagem principal a facilidade de instalação — sem precisar arrumar pedra a pedra — e velocidade de execução. Aparece em centros de distribuição e em obras de caráter ambiental. A obra internacional no Peru é o caso vivo do sistema neste momento.
Anexo F ABNTTela metálicaQuatro pessoas mais uma máquina. Duas equipes compartilham uma máquina; quatro equipes operam com duas máquinas e dezesseis pessoas.
4 pessoasComeça em 20 m²/dia, sobe rápido com a curva de aprendizado. Registro: 195 m² em um dia com três equipes — média de 65 m² por dia por equipe.
~65 m²/dia/equipeEm 99% das obras, Geo Soluções usa solo local — coesivo, silte ou argila. Diferença do padrão norte-americano, que opera com material granular.
Solo localPaulo encerrou o bloco com o comparativo que serve de tese para todo o resto: dois muros com a mesma altura, 7,6 metros, 21 metros quadrados. Para o muro de escamas, somou locação de formas, produção de concreto, aço, material de aterro (areia trazida de jazida a 50 km), grua, mão de obra e equipamentos especializados. Para o Lock+Load, somou material, execução e solo local (a 5 km). A conta fechou em uma diferença de R$ 10 milhões — cerca de 20% mais barato — com quatro meses de redução de prazo.
~20% mais barato−4 meses−840 t CO2“A grande diferença é que a gente usa solo local. Não precisa comprar areia, não precisa trazer material granular. Esse é o ganho — econômico e ambiental.”
Encerramento e homenagem a David Ash
Paulo fechou a palestra com a frase que ficou da sala — “era isso, pessoal, muito obrigado” — depois de quase duas horas de exposição técnica. Mas, em vez de descer do palco, ele tomou os minutos seguintes para contextualizar o próximo bloco do evento: o vídeo do norte-americano David Ash, idealizador do sistema Lock+Load, gravado especialmente para o workshop porque o palestrante não pôde estar presente. Paulo contou a história de como ele e Júlio Pimentel foram pessoalmente atrás de Ash em 2008 para trazer a tecnologia para o Brasil — e abriu o terreno técnico para o que viria a seguir no vídeo: a comparação entre estruturas de concreto rígidas e maciços de solo mecanicamente estabilizado (MSE).
Paulo contou em sala como conheceram o Lock+Load. Em 2008, ele e Júlio Pimentel viram o sistema pela primeira vez e decidiram que aquela tecnologia precisava chegar ao Brasil. Mandaram e-mails para David Ash que não eram respondidos — naquela época, o Brasil não estava no radar comercial dele. Quando souberam que Ash exporia num evento internacional, pegaram um voo e foram pessoalmente até o stand. Encontraram, nas palavras de Paulo, “meio professor pardal” — um engenheiro inventivo que tinha desenvolvido a solução dentro de casa. Dali saiu a parceria que hoje dá à Geo Soluções a licença do Lock+Load no Brasil e em vários países da América Latina.
Licença Brasil + AmLat2008Júlio PimentelAntes do Lock+Load, a empresa trabalhava com sistemas de bloco segmental e cordão de concreto. Paulo explicou em sala por que essa solução não fechava: limitações da fórmula proprietária dos blocos, restrições de geometria, dificuldade de adaptar para alturas maiores e para curvas. Era preciso buscar outra forma — uma estrutura modular que oferecesse flexibilidade real de projeto e ganho técnico de eficiência. Foi exatamente esse o caminho que o Lock+Load destravou.
Bloco segmentalLimite de geometriaO vídeo de Ash retomou os fundamentos: 40 anos de experiência em terra mecanicamente estabilizada (MSE), a evolução da disciplina dentro da engenharia geotécnica e o salto conceitual de comparar concreto rígido com maciços de solo reforçado. Ash apresentou o GRS-IBS (Geosynthetic Reinforced Soil — Integrated Bridge System), reconhecido pela American Society of Civil Engineers como inovação importante para encontros de pontes — uma estrutura em que camadas de solo compactado com geossintético, em finas espessuras (na ordem de 15 cm por camada), substituem o aterro convencional sobre fundação rígida. O contraste com o concreto armado é direto: o concreto resolve carga com massa, enquanto o MSE resolve por interação solo-geossintético, camada a camada.
Ash desenhou a comparação que Paulo já havia preparado em sala. De um lado, estruturas rígidas de concreto armado: carregam por flexão e cisalhamento, exigem fôrma, aço, cura, juntas, e absorvem mal recalques diferenciais. De outro, o maciço de solo mecanicamente estabilizado: cada camada compactada interage com o geossintético, e o conjunto se comporta como uma estrutura coesa, capaz de acomodar deformações sem perder capacidade de carga. É a tese que sustenta o Lock+Load no Brasil — e que o GRS-IBS coroou ao virar referência nos Estados Unidos.
Concreto armadoRecalquesInteração solo-reforçoO vídeo destacou ainda como inovações em painéis pré-moldados foram incorporando aprendizados do MSE. As placas pré-fabricadas — base do próprio Lock+Load — combinam acabamento de concreto com a flexibilidade do maciço reforçado por geogrelha. Como cada painel pode acomodar pequeno movimento vertical em relação ao painel vizinho, o sistema absorve compactação e recalque do aterro sem trincar, e a face permanece estável mesmo em estruturas altas. Em condições sísmicas, esse comportamento ainda ganha relevância: o reforço geossintético dá ao maciço uma resposta mais previsível do que estruturas rígidas equivalentes.
Placa pré-fabricadaMovimento verticalResposta sísmica“A gente viu essa solução pela primeira vez em 2008. Eu e o Júlio falamos: essa solução tem que vir para cá. Mandamos e-mail, ele não respondia. Pegamos um voo, fomos atrás dele.”
Com o vídeo de David Ash no telão e o auditório ainda cheio, Paulo agradeceu a paciência da plateia pelo tempo extra de programa, registrou as desculpas pela ausência presencial de Ash — substituída por uma gravação integralmente traduzida — e encaminhou o público para o coquetel que fechava o Workshop Internacional Geo Soluções. A última imagem do dia foi a costura: solo local no Brasil, GRS-IBS nos Estados Unidos, Lock+Load atravessando a ponte entre os dois — e a Geo Soluções entregando a solução completa, de pré-venda a pós-obra.
CoquetelTradução simultâneaWorkshop encerradoInsights da palestra
O que a fala de Paulo deixa, na soma: geossintéticos não competem por preço de m² — competem por CAPEX total, prazo de obra e tonelada de CO2. Quando a conta é feita inteira, com o solo local no centro, a balança vira em quase todos os comparativos. O papel da Geo Soluções é entregar a conta inteira, e não só o material — e essa tese foi referendada pelo vídeo do próprio David Ash, encerrando o dia com o conceito de MSE como espinha dorsal do solo reforçado moderno.
Toda decisão entre geossintético e solução tradicional precisa rodar simultaneamente em três eixos — economia, velocidade executiva e pegada de carbono. Olhar só um leva ao resultado errado.
A diferença ambiental dos geossintéticos não está no produto — está em quantas viagens de caminhão a solução evita. Trocar rachão por solo local muda a conta em centenas de toneladas de CO2.
O preço relativo dos agregados subiu enquanto os geossintéticos mantiveram seu patamar. Reduzir base ou sub-base com geogrelha, antes inviável, hoje fecha conta. Virada estrutural de mercado.
A norma brasileira de solos reforçados, publicada em 2021, é o que destravou a contenção em solo reforçado em órgãos públicos e em obras rodoviárias e ferroviárias.
A diferença entre a aplicação brasileira do Lock+Load e a prática norte-americana é o solo local. É o gesto que mais reduz transporte, custo e carbono ao mesmo tempo.
O vídeo final de David Ash referendou a tese: MSE compete em pé de igualdade — e muitas vezes vence — soluções rígidas em concreto armado. GRS-IBS nos EUA, Lock+Load no Brasil.
Paulo confessou que nunca usou IA antes desta apresentação. Levou os dados de cada caso para o ChatGPT e voltou com tabelas prontas para colar no projeto — recado direto para o auditório.
Paulo retoma a tese de abertura de Victor: a Geo Soluções entrega solução, não material. Diferença prática: pré-venda, supervisão de campo, pós-venda — e a planilha inteira, lado a lado com o cliente.
Paulo foi o último brasileiro a falar ao vivo, costurando Victor Pimentel, a mesa redonda, Maurício Neves e David Ash. Encerrou cedendo o palco ao vídeo de Ash e ao coquetel.