Painelistas da Mesa Redonda

Mesa Redonda · Workshop Internacional Geo Soluções · São Paulo

Mesa Redonda

Sob mediação de Victor Pimentel, cinco painelistas — de duas grandes concessionárias, de uma construtora, da universidade e da consultoria — debatem os desafios geotécnicos da expansão da infraestrutura rodoviária brasileira: um cenário de demanda sem precedentes, escassez de mão de obra qualificada, prazos curtos de concessão e o papel da tecnologia e da academia.

Mesa RedondaGeotecniaConcessõesRodoviasMão de obra
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painelistas + mediador
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concessão · construtora · academia
7
concessões do Grupo EPR
26 anos
o cenário mais desafiante já visto

Sobre a mesa redonda

Desafios geotécnicos na expansão da infraestrutura rodoviária

A mesa redonda fechou a programação do Workshop Internacional Geo Soluções com um debate aberto sobre como os desafios apresentados na abertura se traduzem no dia a dia da geotecnia. Victor Pimentel, diretor técnico e fundador da Geo Soluções, mediou a conversa lendo perguntas enviadas pelo público via QR Code. À mesa, cinco painelistas com perspectivas complementares: concessionária, construtora, projetista e academia. O ponto de partida foi a constatação de Marco Aurélio Peixoto — em quase três décadas de carreira, ele não se lembra de cenário tão desafiante.

O tema do painel

A pergunta-guia de Victor Pimentel foi direta: como os desafios apresentados em números na abertura — demanda crescente, escassez de gente, pressão de prazo e custo — se apresentam concretamente na geotecnia de cada painelista? O debate percorreu o ciclo completo de uma obra rodoviária: da contratação do projeto à investigação geotécnica, da maturação do projeto à execução em campo.

Geotecnia rodoviáriaConcessões

Cinco olhares sobre o mesmo problema

A força do painel esteve na diversidade de pontos de vista. Beatriz Pozzebon e Bruno Rossi Costa trouxeram a visão de quem contrata e gere o ativo nas concessionárias; Marco Aurélio Peixoto, a do construtor; Vinícius Benjamim, a do projetista e consultor; e a Profa. Natália Correia, a da universidade que forma profissionais e pesquisa novas tecnologias. Juntos, mapearam onde estão os gargalos — e as oportunidades — da geotecnia brasileira.

MultidisciplinarCadeia completa

“Nesses 26, 27 anos de carreira, sempre trabalhando com projetos, eu não me lembro de ter visto um cenário tão desafiante.”

— Marco Aurélio Peixoto, abertura do debate

Quem estava à mesa

Os painelistas e o mediador

Seis profissionais reuniram, no painel, as principais frentes da geotecnia rodoviária brasileira — concessão, construção, projeto e pesquisa. Os mini-currículos abaixo sintetizam a trajetória de cada um.

Victor Pimentel

Victor Pimentel

Mediador da mesa. Diretor técnico e fundador da Geo Soluções, conduziu o debate lendo as perguntas do público enviadas por QR Code e costurando as falas dos painelistas em torno dos desafios apresentados na abertura do workshop.

MediadorGeo Soluções
Beatriz Pozzebon

Beatriz Pozzebon

Especialista em geotecnia no grupo EcoRodovias. Engenheira civil pela USP, com dupla graduação no Politécnico de Torino, mestrado em geotecnia e MBA em gestão de projetos pela USP. Responsável pela disciplina de geotecnia do grupo — estudos, projetos de monitoração, gestão de CAPEX, análise técnica de projetos e resposta a eventos extraordinários. Passou por Planserv Engenharia e Rumo Logística.

EcoRodoviasGeotecniaCAPEX
Bruno Rossi Costa

Bruno Rossi Costa

Lidera a gerência de Geotecnia do Grupo EPR. Engenheiro civil pelo Instituto Federal de São Paulo, com pós-graduação em Engenharia Geotécnica. São 17 anos em obras de infraestrutura, passando por projeto e atendimento na DERSA-SP e por geotecnia na EcoRodovias. O Grupo EPR tem sete concessões entre Minas Gerais e Paraná e um CAPEX a desenrolar nos próximos anos, com foco em fiscalização responsiva e resiliência climática.

Grupo EPRResiliência climática
Marco Aurélio Peixoto

Marco Aurélio Peixoto

Superintendente de engenharia da CONSAG, construtora onde está há 15 anos. Antes, passou cerca de 10 anos no setor, no metrô de São Paulo e na Andrade Gutierrez. Com 26 a 27 anos de formado, sempre atuou em projetos. Sua função reúne liderança técnica e gestão de empreendimentos complexos, coordenação de equipes multidisciplinares e tomada de decisões críticas.

CONSAGConstrutoraGestão de obras
Natália Correia

Profa. Natália Correia

Professora da UFSCar, doutora em engenharia geotécnica pela EESC-USP (São Carlos), com período sanduíche e pós-doutorado na University of Texas at Austin. Bolsista de produtividade do CNPq, é um dos maiores nomes na aplicação de geossintéticos em pavimentos no Brasil e vice-presidente da IGS Brasil. Coordena projetos de pesquisa CNPq e FAPESP e é revisora de periódicos internacionais.

UFSCarIGSGeossintéticos
Vinícius Benjamim

Vinícius Benjamim

Consultor e projetista em geotecnia, na empresa ENG. Engenheiro civil e doutor em geotecnia pela EESC-USP, onde participou da montagem do laboratório de geossintéticos. Foi pesquisador visitante na University of Texas at Austin, avaliando estruturas de arrimo de grandes dimensões. Em 2016, em Yokohama (Japão), recebeu o prêmio da IGS de melhor aluno de doutorado.

Consultoria ENGProjetistaPrêmio IGS 2016

Os temas-chave

Os desafios mapeados pela mesa

Ao longo do debate, os painelistas convergiram sobre um diagnóstico comum: a expansão das concessões traz volume de obra e previsibilidade, mas esbarra em gargalos que atravessam toda a cadeia — da investigação geotécnica à execução em campo. Os seis cards abaixo organizam os temas que mais ocuparam a conversa.

Escassez de gente, do contratante ao executante

O ponto mais recorrente. Falta gente qualificada em todos os elos: projetistas que dominem geotecnia e BIM, geólogos para os ensaios, empresas de sondagem e de topografia, e mão de obra especializada para executar solo reforçado. Marco Aurélio relatou ter perdido um projetista após cinco anos de treinamento; a CONSAG chegou a mudar de sistema em uma obra em Manaus por não encontrar quem executasse.

Mão de obra

Tempo de maturação x prazo de concessão

Um projeto de geotecnia precisa de tempo para maturar — investigação, ensaios, estudo de alternativas — mas a data de entrega do contrato de concessão está fixada e sujeita a punições do Poder Concedente. Como resumiu a mesa: a geotecnia está sempre atrasada, deveria ter nascido um ano antes. A pressa compromete o projeto e empurra o risco para a obra.

Prazo

Investigação geotécnica frágil

Vinícius apontou outro gap enorme: sondagens e ensaios de laboratório pouco confiáveis, com resultados desalinhados, laudos assinados sem geólogo experiente, valores de coesão impossíveis em amostras saturadas. Sem ensaio bom, o projetista precisa se virar com o conceito — e o ensaio, lembrou ele, gera economia: permite otimizar projetos com segurança.

SondagemEnsaios

Geotecnia subdimensionada no projeto

A geotecnia ainda é tratada como disciplina pouco conhecida e frequentemente descoberta tarde no projeto detalhado. A interdisciplinaridade é esquecida — pensa-se no muro e no aterro, mas não na drenagem, na parte elétrica e nas demais disciplinas que interferem na solução. O resultado aparece como custo extra na obra.

Interdisciplinaridade

Resiliência climática e fiscalização responsiva

Bruno destacou que os novos contratos de concessão já preveem investir de 1% a 2% da receita bruta em resiliência. Toda solução de engenharia precisa abordar esse pilar — embora o conceito ainda tenha uma zona cinzenta, como definir a chuva de referência. O Grupo EPR estuda gêmeos digitais e instrumentação para tornar o tema mensurável.

Resiliência climática

Modelos de contratação em transformação

A entrada de capital privado mudou a forma de contratar. EPR e EcoRodovias estudam contratos de longo prazo (LTA), fidelização de projetistas, internalização de frentes como monitoração e a contratação direta de empresas de sondagem — antes subcontratadas pelo projetista. O objetivo é dar previsibilidade e permitir que os fornecedores invistam.

Contratos LTA

As falas marcantes

O debate, na voz de cada painelista

Cada painelista contribuiu com a leitura do seu setor. As citações abaixo — extraídas da transcrição e limpas de ruídos — sintetizam a posição de cada um sobre os desafios da geotecnia rodoviária.

“Vamos ter que trabalhar, a cada dia, com cada vez menos pessoas — em todos os setores, desde o contratante até o executante. E tudo isso, no final das contas, impacta prazo e impacta custo.”

— Marco Aurélio Peixoto, superintendente de engenharia da CONSAG

“Nossa visão dentro de casa é o inconformismo criativo: olhar sempre para soluções inovadoras, fora da caixa. Qualquer solução que traga valor ao negócio e nos ajude a cumprir o CAPEX dentro do prazo é valiosa.”

— Bruno Rossi Costa, gerente de Geotecnia do Grupo EPR

“Temos uma quantidade de informação muito grande — mais de 10 mil taludes, dados de monitoração e instrumentação. Usamos inteligência artificial no dia a dia para reduzir o trabalho operacional e ganhar na parte analítica.”

— Beatriz Pozzebon, especialista em geotecnia da EcoRodovias

“Em 2010 era muito difícil falar de geogrelha em pavimento; até 2015 quase não se aceitava. Hoje, vinte anos depois, há mais de cem produtos para revestimento asfáltico, casos monitorados e melhor entendimento dos mecanismos.”

— Profa. Natália Correia, UFSCar e vice-presidente da IGS Brasil

“A investigação geotécnica é um gap enorme da engenharia. O ensaio gera economia: temos enorme capacidade de otimizar projetos se tivermos mais ensaio. O conceito tem que ser mais importante do que o que enxergamos no papel.”

— Vinícius Benjamim, consultor e projetista em geotecnia

A universidade na vanguarda

Natália Correia defendeu que a universidade sempre esteve na vanguarda, trazendo o que está na ponta do conhecimento. As concessionárias de ponta já têm setor de pesquisa interno, ligado às universidades — o que reduz o risco de adotar novas tecnologias. Mas ela ressaltou: não basta atualizar o projetista; todo o sistema precisa mudar, até quem está no campo.

Tripé ensino-pesquisa-extensão

Estudar a obra justifica o preço

Marco Aurélio explicou que, com um modelo BIM bem estruturado, é possível planejar a obra tridimensionalmente, prever recursos e justificar o preço: quanto mais se estuda, mais se coloca recurso na proposta. Ele alertou, porém, que muito modelo BIM chega como uma figura 3D sem informação real — e questionou como esses modelos foram contratados e em quanto tempo.

BIMOrçamento

“Se a gente investe em sondagem, em investigação, se investiga em tempo, consegue ter um projeto melhor. Tudo o que conversamos aqui se traduz em risco — e o risco se traduz no custo final da contratação.”

— Marco Aurélio Peixoto, considerações finais

Insights da mesa redonda

Pontos-chave do debate

O que a mesa redonda deixa: a expansão das concessões rodoviárias abre uma década de oportunidade para a geotecnia e o solo reforçado, mas os gargalos estão na cadeia inteira — gente, prazo, investigação, contratação e execução. As considerações finais convergiram para uma palavra: ética. Os oito pontos abaixo resumem o debate.

O cenário mais desafiante em quase 30 anos

Marco Aurélio abriu o debate dizendo não recordar, em 26 a 27 anos de carreira, cenário tão desafiante — do ponto de vista econômico e estratégico. A demanda cresce, mas a capacidade de entregar não acompanha.

O gargalo de gente atravessa toda a cadeia

Falta gente qualificada do contratante ao executante: projetistas que dominem geotecnia e BIM, geólogos, empresas de sondagem e topografia, e mão de obra de campo. A formação é lenta e a engenharia civil atrai menos jovens.

A geotecnia está sempre atrasada

O tempo de maturação de um projeto geotécnico não cabe nos prazos fixos da concessão, sujeitos a punição. A disciplina costuma ser subdimensionada e descoberta tarde no projeto detalhado — quando o custo da correção já é alto.

Investigação geotécnica é gap — e oportunidade

Sondagens e ensaios pouco confiáveis obrigam o projetista a se apoiar no conceito. Mas o ensaio gera economia: investir em investigação permite otimizar projetos com segurança e reduzir contingências e incerteza.

Contratos de longo prazo dão previsibilidade

EPR e EcoRodovias migram para contratos LTA, fidelização de projetistas e contratação direta de sondagem. Ao apresentar um horizonte de cinco anos de demanda, a concessionária permite que o fornecedor invista em equipamento e equipe.

Resiliência climática vira pilar de projeto

Novos contratos de concessão preveem investir de 1% a 2% da receita bruta em resiliência. Toda solução de engenharia precisa incorporar esse pilar — e o setor estuda gêmeos digitais e instrumentação para torná-lo mensurável.

O solo reforçado vive sua melhor década

Vinícius e Natália relataram um crescimento expressivo do solo reforçado e dos geossintéticos nos últimos anos. As concessões pedem múltiplas soluções comparadas técnica e economicamente — e a próxima década promete ser de forte expansão.

A ética destrava o crescimento

As considerações finais convergiram: por mais apertado que seja o prazo, a sondagem, o projeto e a execução precisam ser feitos com ética. Identificar empresas que trabalham com ética, segundo a mesa, é o que destrava o crescimento sustentável do setor.